27/10/2010

Relato de parto - Pérola

Sempre quis ser mãe de dois, três, quatro filhos. Adoro família grande. Quando a minha mãe engravidou do meu irmãozinho fiquei mega feliz porque, a partir do dia que ele nascesse, eu passaria a ter dois irmãos. E quando descobri que estava grávida de novo, com o Teo beirando os seis meses, além do susto e do medo e do desespero senti, bem lá no fundinho, uma felicidade enorme por poder dar um irmão (ou no caso, irmã) para o meu filho.

Como de praxe, tive uma gravidez tumultuada, cheia de altos e baixos, com hormônios borbulhando à flor da pele. Mas dessa vez, já sabia que a maioria das coisas faziam parte da gravidez (um pouco mais acentuadas por ter que cuidar de um bebê enciumado com outro na barriga). Como também já sabia o tipo de momento para o qual eu precisava me preparar. Sabia como era a dor. Sabia como era o TP. E também sabia que se fosse para o hospital imploraria de novo pela anestesia. Pelo menos pensei que sabia...

Por isso, tentei fazer tudo diferente.

Me preparei desde o começo para o diabetes gestacional (que foi o inferno da minha outra gravidez), controlei alimentação e peso, fiz um plano de parto muito mais consciente do que da primeira vez e optei por um PD com parteira. Eliminamos tudo o que fosse dispensável, queria tudo o mais natural possível. Eu queria parir na minha casa, com a minha família por perto, sem intervenção nenhuma e nem de ninguém. Queria ultrapassar meus limites para então renascer. Eu sentia que precisava desse empoderamento.

Ao final de tudo decidi por ser guiada somente pelas parteiras Márcia e Priscila. Combinei com a Maíra, doula, que a chamaria caso eu sentisse necessidade. Dispensei neonatologista, ainda que estivesse com diabetes gestacional e fosse strepto positivo. Estava confiante de que tudo daria certo. Tão confiante quanto nunca! E isso fez toda a diferença.

As últimas semanas não foram fáceis. Sentia muitas dores, cãimbra, cansaço e sono. O Teo estava birrento, não me queria por perto, não me deixava dormir de dia e a insônia não me deixava dormir de noite. Estava exausta! Queria que ela nascesse logo...

Dia 20 de junho começaram os pródromos. Eu estava com 37 semanas. Fiquei felicíssima, já que na gravidez do Teo minhas primeiras contrações começaram na sexta e ele nasceu na segunda. Mas esse foi só o começo da tortura... Continuei em pródromos por mais de uma semana, acordando quase todos os dias de madrugada por conta das dores.

No dia 28 meu tampão começou a sair e eu senti contrações mais fortes do que as de antes (e ainda irregulares). Ali eu soube que estava começando. Porque, néam, a gente sempre sabe quando começa o TP.

No dia 29 tive contrações o dia todo, mas ainda irregulares. Contei e anotei todas. A cada contração eu sentia uma vontade gigantesca de vibrar e torcia para que ficassem regulares logo. Eu já estava vivenciando o momento mais esperado desses meses todos. Passei o dia todo com o cronômetro e a agenda na mão, anotando. À noite pedi para o marido vir direto do serviço para casa e antes dele chegar, as contrações ritmaram de 10 em 10mins. Liguei para a Márcia, que me pediu para continuar contando e para ligar assim que ficassem menos espaçadas.

Por volta das 22hrs entrei em TP efetivamente. Foi aí que as contrações passaram a ficar um pouco mais doloridas e mais frequentes. Mas ainda assim a dor era completamente suportável. Eu nem acreditava nisso! Conseguia me distrair no computador entre uma contração e outra, e na hora da dor o marido me fazia massagem na lombar para aliviar. No outro parto, com 3cms, eu mal conseguia falar de tantas dores. E para a minha tranquilidade, o Teo já estava dormindo. Fui falando ao telefone com as parteiras de hora em hora e um pouco antes das 2hrs da madrugada liguei para a Priscila e pedi para que ela e a Márcia viessem para casa. Como eu moro em Guarulhos elas demoraram um pouco para chegar. Nesse meio tempo as contrações ficaram absurdamente doloridas e eu resolvi ir para o chuveiro. Fiquei lá um tempão e na hora que saí a Márcia chegou. Timing perfeito! Nessa hora também o Teo acordou por causa dos meus gemidos. Hehehehe

A Márcia fez o exame de toque e, tcharam, 6 para 7cms!!! Fiquei muito, muito feliz, apesar de não ter conseguido expressar na hora. Ela então começou a encher a banheira, a Priscila chegou e eu entrei na partolândia. Já não conseguia mais ver nada na minha frente. As contrações doíam muito e pareciam não ter mais intervalo entre elas. Eu queria acabar logo com aquilo porque tava foda.

Assim que a banheira ficou pronta eu pulei pra dentro! Hahahahahaha! E esse foi um dos momentos mais deliciosos daquele dia. Aquela água quentinha e aquela banheira fofinha me relaxaram o corpo e clarearam minha visão. Passei a enxergar e escutar as pessoas. Nessa hora percebi que tinha mandado o Diogo ir para o quarto com o Teo porque o choro dele estava me desconcentrando. Tadinho...

Na primeira contração dentro da banheira eu senti a bolsa estourar. A princípio duvidei se era mesmo a bolsa estourando, mas alguma parteira confirmou (não lembro qual das duas). E aí, minha gente, o bicho pegou de verdade. Tipo, eu tive um minuto de tranquilidade naquela água quentinha, porque na próxima contração comecei a sentir os puxos. Já estava começando o meu expulsivo.

Alguém fez o exame de toque e eu estava com 8cms. Na hora eu não entendia como estava sentindo os puxos se ainda faltavam 2cms para a dilatação total, mas sabia que estava sentindo. Estava morrendo de medo de me rasgar toda sem a dilatação total. Não conseguia encontrar uma posição e comecei a me contorcer na banheira a cada contração. Tentei de quatro, de barriga pra cima, sentada... nada me deixava “confortável”. Doía demais! Era uma dor agudíssima, no corpo todo, mas que me fazia sentir viva, forte, poderosa. Até que deitei de lado. A dor ainda era muito forte, eu gritava muito e parecia que meu corpo estava se rasgando ao meio. Mas o expulsivo foi rápido. Acho...

Me lembro de ter empurrado poucas vezes, da Priscila me dizendo para segurar e lá estava minha Pérola nos meus braços, toda linda e cheirosa. Nasceu esperta e parou de chorar assim que veio para o meu colo. Eu olhava pra ela e não acreditava que tinha parido. Estava radiante! E todas as dores e incômodos tinham ido embora, junto com a antiga Luciana.

Não tive laceração, “pari” a placenta assim que saí da banheira e não tive fotos. O Diogo e o Teo também não conseguiram assistir o nascimento, de tão rápido que foi. Mas no segundo depois de chegar à este mundinho, Pérola estava lá, rodeada do olhar amoroso do pai, do olhar curioso do irmão e do meu olhar, repleto de amor e orgulho.


A Pérola nasceu de um parto domiciliar na água, no dia 30 de junho de 2010 às 5:19hrs, com 3050g e 47cms, depois de 7hrs de TP.

Esse foi o evento da minha transformação. Foi nesse dia que a natureza me mostrou sua sabedoria. Foi nesse dia que me descobri capaz de qualquer coisa nessa vida. Me senti mais forte, mais mulher, mais mãe. Mãe absoluta! O orgulho tomou conta de mim e eu me vi livre de uma culpa oculta por optar pela analgesia no meu primeiro parto. Foi um parto rápido, dolorido, lindo e libertador. Eu, que pensei já saber como era, quebrei a cara. Descobri que cada parto é um parto, com o seu tempo e as suas dores.

Depois desse turbilhão de emoções, eu só queria descansar. Deitei ao lado da minha menina e adormecemos juntas, pela primeira vez.

***

Meus agradecimentos mais sinceros à Márcia e à Priscila, amadas parteiras, maternas queridas. De tudo, de todo esse processo, eu só tenho a agradecer o carinho, o cuidado e a atenção. As suas credibilidades em mim e no meu corpo foram essenciais para me fazer crer que eu seria capaz de parir em casa apesar dos percalços. Me restam saudosas lembranças dos nossos encontros mensais e dos momentos das horas mais intensas da minha vida que pude compartilhar com vocês duas.

Também agradeço ao Diogo, meu marido e companheirão, que me provou no dia do parto e tem me provado todos os dias o quanto valeu a pena lutar. Obrigada por me aguentar mais chata e mais briguenta durante os nove meses, pela paciência, pela insistência, pelo apoio, pelas noites em claro, por não medir esforços para me fazer feliz e por esse amor que você me devota a cada minuto de nossas vidas. É um pai maravilhoso e eu não poderia querer outro para os meus filhos. Amo você.

Ao Teo, meu primeirinho, que aprende junto comigo todos os dias e que me ensina tantas coisas; que me abriu as portas para esse processo de transformação e renovação; e que me mostrou que a vida é muito mais colorida do que possamos imaginar.
À Pérola, que me escolheu como mãe, que me deu a chance de descobrir um pouco mais de mim e que me ajudou a fechar esse ciclo de empoderamento.
Aos meus bebês, que sem os quais eu já não saberia mais viver, o meu amor incondicional. Por todo o sempre.

26/10/2010

O relato

Gentem, tá prontinho há 3 dias mas não tive tempo ainda pra publicar aqui.
Se der, amanhã, ok?